Agradecimento

Quando a noite chega mais cedo

Ou a incômoda percepção da realidade

Lateja enxaquecosa e afirma o óbvio,

Que o ceu não tem estrelas,

Corro rápido à procura de registro.

Muito distante das rimas,

Sobrevivo com palavras secas.

São duras e escassas mas,

São elas que travam a vida.

São os dias escravos das horas

Todos os dias são escravos do Tempo

Tão lento que materializa.

Necessidade de escrever que incomoda

Se escrevesse menus clássicos…

Mas, escrevo em profundo estranhês

Palavras forjadas no peito.

Sem rimas, sem risos, sem novidade.

Repetindo temas comuns.

Funcionário da Vida,

Ilusionista da eternidade.

Que felicidade plena e rasa!

Em breve humanidade de contentamento

Intestino esvaziado.

Sinto – me otimista e tomado

De alegria programada.

Mas, Lúcifer, rejeito domínios e agradeço:

Obrigado poesia!

Uma lembrança

No carro ia uma senhora conhecida.
Sabia disso apesar de estar na frente, separados.
Íamos em silêncio, o carro também,
Atrás de respostas; conhecidas.
Ela seguia continuamente calada.

Empurrada sobre estreita cama baixa de rodas
Não reclamava,ia apenas,obediente.
Uma senhora séria,severa,calada.
Queria respostas não encontradas;traída.
Sempre deitada,como que treinando.
Entrou espontaneamente contida
No deus humano metalizado.

Queria resposta esquivada.
Ficou lá imóvel,enterrada na máquina artificialmente
viva.
Eu,ao lado, assistia ao ensaio.
Voltamos em silêncio, de novo, todos.
O carro fazia curvas,subia,descia.
E já não havia nenhuma novidade.

As árvores presas ao presente,os pássaros sem rumo,
o gado deitado, os cavalos magros
os cães sempre vadios e os gatos dissimulados.
E as pessoas, todo dia novas e estranhas,
Percorriam aquele mesmo trajeto.
Ignoravam a senhora que foi e voltava
Encistada no mesmo corpo inerme.
Ignoravam seu nome,sua existência e seu fim.

No segundo dia do retorno
Como estalo da memória, revelou
o que entendeu da mensagem do deus humano metalizado.
Repetiu o que ouviu, claro e irrevogável:
" ra  ra  ra ra ra ra... 
  trum trum trum trum...
  ziimmm ziimmm ziimmm.
  tá zoin tá zowwwin tá zoin... brump."

Eu ri, achando divertido. Muitos riram. Ela continuava espirituosa.

Ela repetia ansiosa para que entendêssemos.
Não entendíamos, ou fingíamos.
Ela só queria comunicar, e recusamos ouvir
Que o deus humano metalizado sentenciou:
Seu fim chegara.

Ela queria escapar e pedia ajuda.
Nós ríamos. Ela continuava espirituosa.


	

Uma canção infeliz

Nas espumas das ondas

Brinca convalescente.

No colar perdido recupera

Memória…memória…

Recente?

Deixa tudo para trás.

Procura…procura… um colar?

Mergulha nas ondas rasas que acredita ser

O mar.

Colar não encontrado.

E, preocupar?

Lembrança da lembrança…

Lembrança?

A memória faiscou.

Sombras floresceram

Adornando

Cantiga antiga.

Brincam as espumas como se alto-mar.

Mar duro.

Contra doçura.

Ingênua espuma insinua:

“Lá, lá, lá, lá, lá, lá…”

Solfeja, angelical, como brisa.

“Nunca mais há de se lembrar…

E o mar…”

O mar atravessou

( tem certeza de que a tudo ouviu)

” mandei um tubarão pra suas pernas arrancar”

E a brisa seca ri,

Indiferente.

Um

Eu sou único no mundo.

Você me parece semelhante,

Ele tem opções diferentes.

Nós representamos o presente.

Vós sois o passado do mundo.

Eles serão, talvez, um futuro.

Continuo único e pensante.

Se o mundo morrer

Estarei sozinho.

Representante

Do vazio que impera,

E domina,

A realidade idealizada.

Se eu morrer,

O mundo continuará

Vazio e solitário, cheio de formas.

Girando…girando…sem motivo,

Enquanto incho

Derretendo conexões.

Apreendido na rede cheia de entrenós

E grandes buracos,

À espera da Grande Aranha,

Uma deusa, dizem, que é Deus; espero:

Como semente no meio da polpa,

Como soldado aviador voando alto,

Como crisálida presa ao galho,

Como estou, preso a instintos e sem razão.

Pularei consciente da alta ponte

Que liga desejo e realidade

E acordarei, cansado, talvez,

Da vida sonhada, rapidamente esquecida.

A bunda

A bunda balança e se equilibra

Usa das pernas para se exibir.

Hipnotiza.

Cartão de visitas.

Abundam olhares e sonhos.

Revela segredos

Divertidos e íntimos

Que nenhum Deus compreenderá.

Queima os olhos,

Acende fogueiras,

Incendeia a vida.

Instiga o desejo de reproduzir

Escondido por tiras ou pensamentos,

Novas bundas.

E segue rítmica, ondulante

Como deve ser o centro

Da vida.

Rebola oferecida

Cheia de nãos;

Definitivos.

( Para o Grande Drummond, se não ofender)

Receita

O leão, inovador, mal tinha acabado de matar.

A caça arfava; seduzida pela caçada se entregava; olhos gozosos enquanto o rei descansa.

O elegante leão, surpreendentemente, pausa tudo.

Revisa o tempero e o tempo. Os filhotes famintos deliram. Em cuidadosa aula ensina: caça fresca de bom aspecto, bem escolhida; dá-lhe algumas patadas; está gloriosa e realizada. Apenas proteina, nenhuma história.

O leão, caçador galã, não revela de quem é o mérito da caçada.

Olha para a plateia com olhos humanos.

Concorrentes, conhecidos e chegados admiram.

O carnívoro descansa sua arma afiada sobre a forma vazia.

Os veganos não concordam, mas são frágeis e alternativos.

Recusam-se a ser vistos como doadores de vida que são.

O Leão,

Descreve sua receita sobre morte: luta bruta, involuntária e repetida; ânsia de vida.

A caça, salpicada de moscas famintas como temperos, empanada no pó dos antepassados e no suor de sua luta perdida aguarda, da fome que não é sua, a boca enorme e a transubstanciação amarga.

No último dia, último de todos, o gosto do próprio sangue.

Deus, meu Deus! Por que a abandonaste?

Em câmera lenta, o mestre revisa cada detalhe:

A superioridade em dissimular o ataque, a troca de olhares na sedução mortal e como será levada ao santuário escondido: boca grande, dentes fortes, paciência; a garganta se abre: terra podre, terra sagrada, vida sugada.

Com urro desencantado expõe a intimidade do que conhece como dor, como obrigação nas caçadas:

apenas teatro, superficial; um clássico de fim de noite.

Não há segredo que resista aos dentes agudos, nem tempo para confessor.

Nem há tempo! E o tempo não interessa mais. Nada mais interessa.

No saque, conclui o sacador, a carne preenche a vida. E só!

Interface

Sobre minha pele o desenho
do rosto em traços atualizados
pelos olhos dos outros.
Descrição surreal.

Cabelos brancos e curtos
lembram anos esquecidos e
guardados na memória de outros;
agora personagens.

Sob a pele e os cabelos rentes e brancos
um pensamento sem tempo; ingênuo.
As armas apontadas e decididas a matar
enquanto pondero o momento.

Um coração automático
lembra horas basais.
Enrijecido, nada mais convence que o calor
de bater é bom sem ter motivo

Dois pulmões abastecem
e manifestam alegria e ansiedade.
Em outras peças importantes minhas
sou redimensionado e ignoro funções existenciais.

Um fígado, dois rins e um enorme intestino,
cérebro abdominal,
negociam, filtram, selecionam e consomem
como sindicato, as decisões da voz pensante.
E a vontade inesgotável
de construir e contaminar.
E criar novas interfaces;
de iludir. Muitas vezes abominável.
Sob as marcas da pele como se mapa
as fundações duras sustentam um desconhecido universo.
Sirvo de repasto para muitos mundos.
Fluxos ritmados de várias umidades transportam ordens
imediatas para sobreviver.
Sob as marcas da pele ofereço
interface amiga.
Em ouvidos imensos e olhos estreitos,
a boca muda guarda língua curta.

Interface que desbota
se esvai ao ser consumida.
Nem percebe que sua luta
aduba o que ilude ser vida.

Trovas

De manhã o sol dourado
Faz esquecer a tristeza
À tarde, sol cobreado
Melancólica beleza

Nuvens diversas distantes
Mudam rápidas os tons
As cores fortes de antes
Ficam brancas no horizonte

Aves alegres cantando
Misturam sons coloridos
Logo, o silêncio chegando
Cada uma em seu abrigo

Tantos homens acordados
Sob um manto luminoso
Com luz forte são cegados
Tomam rumo duvidoso

 

Ser

um testamento, uma teoria, uma possibilidade passível de exclusão

Sou o que restou de ontem
quase igual
e pareço todo.
E pensar assim
sem qualquer resposta, apenas parte,
confirma ser eu apenas tolo.

Serei o que planejei
com a rigidez escrita de um lápis.
Ponta quebrada
em riscos frouxos .

O tempo em que vivo e vive ao lado
é de ordem limitada e desaparece
como câmera lenta, some,
em ângulos abertos.
Tempo tão lento que o presente se toca.
toco o momento.
Mudaria destinos.
Sou brevidade do tempo;
pronunciado e não mais sou
nem saberei para onde fui,
mesmo querendo estar
perdido na ilusão de ser.
Tenho ou sou um corpo e umas ideias.
Tudo isso sou eu
Tudo o que sou ou tenho ou penso
Traduz-se em vazio ou delírio imenso?

Se

Se eu pudesse atravessar o vazio
Se eu pudesse tocar o esquecido
Se seu soubesse da vida ao lado
Se eu pudesse guardar semente.

Se os olhos límpidos acreditassem
Se os olhos míopes enxergassem
Se os olhos se conservassem vivos
Se os olhos não fossem ingênuos

Se os dias fossem diferentes
Se os meses durassem o meu tempo
Se os anos não fossem tão rígidos.
Guardaria bons momentos

Se as noites fossem seguras
Se não mais houvesse o escuro
Se as luzes indicassem caminhos
Enfrentaria os piores pensamentos.

Se o universo prenhe de outros mundos,
Se, como tornado girando silente, seu olho
Se indiferente olha o grão que sou eu
Seria pleno em seu centro.

E nada pensado existiria
E o calor das estrelas seria frio
E a impressionante vida e seus ambientes
Não existiram sem meus olhos existentes.
Meus olhos criam.