varrição

os amantes eletrizados
vagueiam à procura de ninho e
andam cegos, andam soltos,
plenos de energias e raios

prestes a cair; e vontade de morrer
e se enterrar um no outro.
no banco da praça vazia da cidade deserta,
bem no fim da noite e começo do dia.

o banco frio e úmido, não percebem.
seus corpos estudam a melhor estratégia;
se acomodam, se molham, se enrijecem,
canibalismo treslouco anunciado.

a porta conservadora de uma casa azul e branco colonial
escondia vassoura bastante prestimosa.
antecipando o horror acordou sua dona, mui religiosa
e varreram para muito longe os desejos de todos.


Uma versão

Será de sabiá o canto que ouço longe

Ou será ilusão da memória?

Mas sabiá foi calado, como os outros,

Pelo pranto da mata queimada.

Mata distante, fuligem na história.

Palmeiras rupestres sobraram.

Outra mata fechada floresce.

Caules finos, sem galhos, sem pousos.

Voaram todos, sem rumo, dispersos.

O silêncio quebrado por gralhas felizes.

Risadas secas, automáticas

Em torno da fogueira para a liberdade.

Não alucino, pois de sabiá é o canto…

Aninhado alto.

Talvez um idoso, talvez um relógio

Esse escape saudoso.

Da terra bela e suas palmeiras

Restam dúvidas cerradas e corvos.

Teriam mesmo sabiás havido?

Ou apenas devaneios de bem-te-vi engajados ?

Lógica

Se bebo, escrevo;
logo,
poema perfeito.
Admiro a fluidez na garrafa.
Vazia como se meus pensamentos.

Fugaz o álcool, delírios dementes;
resta o azedo das palavras fugidias.
No cérebro inflamado arde,
censura doente.

Nauseado, o texto lido estampa
retrato gizado em traço espesso.
Trocadilhos alquebrados soltos
Disfarçam um rosto.

O meu!
Fundido, fendido, ferrado.
No caos e no delírio de existir
em não-histórias, em não-amores, em não-aí.

No começo era o caldo…

Um caldo espesso.

DNA melado

Escorre lento

Criando pais, filhos, parentescos.

Do mesmo caldo cozido no Tempo

Os trejeitos, as vozes, os talentos.

E

O olhar do avô,

A simpatia da avó

Um sorriso lembra o tio

Escondendo nos desvãos das gerações

O erro divino primeiro

Deus, O próprio, espelhado

No barro.

Uma Prisão

Na solidão, o sol se apaga.
Os fantasmas são amigos.
Mais que amigos, interlocutores fieis.
Sol visto não garante vida.
Viver em companhia de si mesmo é preciosidade.
Quantos são os que se sabem além da carne?
Tem-se o poder de regular a luz que entra.
Variações de escuro são percebidos.
Razão valorizada.
E sempre há algum brilho; o necessário,
Nos olhos.

Ano novo

O dia surge no horário previsto.
O Sol é dourado e parece acordar tão fresco como há 4,5 bilhões de anos.
Na última chamada para as rotinas,
os seres correm para seus lugares sem questionar; muitos são outros.
Algumas nuvens se pintaram com as cores do momento e
passam densas à procura de trabalho; preocupações… aos poucos, evaporam-se no muito alto mar do céu.
Os pássaros, a toda corda, em felicidade infinita mergulham no vazio.
Homens se levantam cansados e ressentidos.
Mais um dia sabido comum;
mais um dia de homem comum.
E todos os homens precisam de costuras.
Única forma de se prenderem ao Tempo.
Numa tristeza de festa não consumada aguarda ser repetida
é o que consola.
De novos mesmos, os dias plenos das mesmas horas.
Nesta Terra que vivencia três tempos e ignora,
presentes em tempos diferentes.
A existência remediada por cores expostas em prateleiras ordenadas
como um arco-iris de dores aprisionadas.
No indecifrável universo mecânico, comemorações de animal insatisfeito. Ruidoso para afugentar o silêncio,
festeja com alegria infantil
e macaqueia seu mais profundo medo.

Brevidade

Brevidade

Quando vejo que ao meu lado vivem
Tantas almas juntas em breve instante,
Passado e presente que convivem,
Misturados em Tempo vigilante.
Não sei se meus olhos estão abertos
Nem se, à frente, está a realidade.
Somem uns, surgem outros, de repente;
Semeadura e colheita sem idade.
Enquanto estes olhos anoitecidos,
Não percebem a própria brevidade.