Uma Prisão

Na solidão, o sol se apaga.
Os fantasmas são amigos.
Mais que amigos, interlocutores fieis.
Sol visto não garante vida.
Viver em companhia de si mesmo é preciosidade.
Quantos são os que se sabem além da carne?
Tem-se o poder de regular a luz que entra.
Variações de escuro são percebidos.
Razão vaslorizada.
E sempre há algum brilho; o necessário,
Nos olhos.

Ano novo

O dia surge no horário previsto.
O Sol é dourado e parece acordar tão fresco como há 4,5 bilhões de anos.
Na última chamada para as rotinas,
os seres correm para seus lugares sem questionar; muitos são outros.
Algumas nuvens se pintaram com as cores do momento e
passam densas à procura de trabalho; preocupações… Aos poucos, evaporam-se no muito alto mar do céu.
Os pássaros, a toda corda, em felicidade infinita mergulham no vazio.
Homens se levantam cansados e ressentidos.
Mais um dia sabido comum;
mais um dia de homem comum.
E todos os homens precisam de costuras.
Única forma de se prenderem ao Tempo.
Numa tristeza de festa não consumada aguarda ser repetida
é o que consola.
De novos mesmos, os dias plenos das mesmas horas.
Nesta Terra que vivencia três tempos e ignora,
presentes em tempos diferentes.
A existência remediada por cores expostas em prateleiras ordenadas
como um arco-iris de dores aprisionadas.
No indecifrável universo mecânico, comemorações de animal insatisfeito. Ruidoso para afugentar o silêncio,
festeja com alegria infantil
e macaqueia seu mais profundo medo.

Brevidade

Brevidade

Quando vejo que ao meu lado vivem
Tantas almas juntas em breve instante,
Passado e presente que convivem,
Misturados em Tempo vigilante.
Não sei se meus olhos estão abertos
Nem se, à frente, está a realidade.
Somem uns, surgem outros, de repente;
Semeadura e colheita sem idade.
Enquanto estes olhos anoitecidos,
Não percebem a própria brevidade.

Carinho

O menino nu, de pé sobre a banheira, tremia.

As mãos apertadas sob o rosto.

A pele arrepiada, seus pés mergulhados

Na água fria.

Da janela fechada, além dos vidros,

O escuro intenso

Realçava inúmeros patrulheiros

Piscando suas motos voadoras.

Guardavam os bons bichos recolhidos

Escondidos do que a noite trazia no medo.

A água mais e mais esfriava,

Sugava o calor e se nutria.

Uma luz tremeluzente surgiu

Carregava o próprio lume,

Indiferente.

Como patrulheira dedicada

Jogou a toalha em minhas costas

Se apagou e sumiu.

Agradecimento

Quando a noite chega mais cedo

Ou a incômoda percepção da realidade

Lateja enxaquecosa e afirma o óbvio,

Que o ceu não tem estrelas,

Corro rápido à procura de registro.

Muito distante das rimas,

Sobrevivo com palavras secas.

São duras e escassas mas,

São elas que travam a vida.

São os dias escravos das horas

Todos os dias são escravos do Tempo

Tão lento que materializa.

Necessidade de escrever que incomoda

Se escrevesse menus clássicos…

Mas, escrevo em profundo estranhês

Palavras forjadas no peito.

Sem rimas, sem risos, sem novidade.

Repetindo temas comuns.

Funcionário da Vida,

Ilusionista da eternidade.

Que felicidade plena e rasa!

Em breve humanidade de contentamento

Intestino esvaziado.

Sinto – me otimista e tomado

De alegria programada.

Mas, Lúcifer, rejeito domínios e agradeço:

Obrigado poesia!

Uma lembrança

No carro ia uma senhora conhecida.
Sabia disso apesar de estar na frente, separados.
Íamos em silêncio, o carro também,
Atrás de respostas; conhecidas.
Ela seguia continuamente calada.

Empurrada sobre estreita cama baixa de rodas
Não reclamava,ia apenas,obediente.
Uma senhora séria,severa,calada.
Queria respostas não encontradas;traída.
Sempre deitada,como que treinando.
Entrou espontaneamente contida
No deus humano metalizado.

Queria resposta esquivada.
Ficou lá imóvel,enterrada na máquina artificialmente
viva.
Eu,ao lado, assistia ao ensaio.
Voltamos em silêncio, de novo, todos.
O carro fazia curvas,subia,descia.
E já não havia nenhuma novidade.

As árvores presas ao presente,os pássaros sem rumo,
o gado deitado, os cavalos magros
os cães sempre vadios e os gatos dissimulados.
E as pessoas, todo dia novas e estranhas,
Percorriam aquele mesmo trajeto.
Ignoravam a senhora que foi e voltava
Encistada no mesmo corpo inerme.
Ignoravam seu nome,sua existência e seu fim.

No segundo dia do retorno
Como estalo da memória, revelou
o que entendeu da mensagem do deus humano metalizado.
Repetiu o que ouviu, claro e irrevogável:
" ra  ra  ra ra ra ra... 
  trum trum trum trum...
  ziimmm ziimmm ziimmm.
  tá zoin tá zowwwin tá zoin... brump."

Eu ri, achando divertido. Muitos riram. Ela continuava espirituosa.

Ela repetia ansiosa para que entendêssemos.
Não entendíamos, ou fingíamos.
Ela só queria comunicar, e recusamos ouvir
Que o deus humano metalizado sentenciou:
Seu fim chegara.

Ela queria escapar e pedia ajuda.
Nós ríamos. Ela continuava espirituosa.


	

Uma canção infeliz

Nas espumas das ondas

Brinca convalescente.

No colar perdido recupera

Memória…memória…

Recente?

Deixa tudo para trás.

Procura…procura… um colar?

Mergulha nas ondas rasas que acredita ser

O mar.

Colar não encontrado.

E, preocupar?

Lembrança da lembrança…

Lembrança?

A memória faiscou.

Sombras floresceram

Adornando

Cantiga antiga.

Brincam as espumas como se alto-mar.

Mar duro.

Contra doçura.

Ingênua espuma insinua:

“Lá, lá, lá, lá, lá, lá…”

Solfeja, angelical, como brisa.

“Nunca mais há de se lembrar…

E o mar…”

O mar atravessou

( tem certeza de que a tudo ouviu)

” mandei um tubarão pra suas pernas arrancar”

E a brisa seca ri,

Indiferente.

Um

Eu sou único no mundo.

Você me parece semelhante,

Ele tem opções diferentes.

Nós representamos o presente.

Vós sois o passado do mundo.

Eles serão, talvez, um futuro.

Continuo único e pensante.

Se o mundo morrer

Estarei sozinho.

Representante

Do vazio que impera,

E domina,

A realidade idealizada.

Se eu morrer,

O mundo continuará

Vazio e solitário, cheio de formas.

Girando…girando…sem motivo,

Enquanto incho

Derretendo conexões.

Apreendido na rede cheia de entrenós

E grandes buracos,

À espera da Grande Aranha,

Uma deusa, dizem, que é Deus; espero:

Como semente no meio da polpa,

Como soldado aviador voando alto,

Como crisálida presa ao galho,

Como estou, preso a instintos e sem razão.

Pularei consciente da alta ponte

Que liga desejo e realidade

E acordarei, cansado, talvez,

Da vida sonhada, rapidamente esquecida.

A bunda

A bunda balança e se equilibra

Usa das pernas para se exibir.

Hipnotiza.

Cartão de visitas.

Abundam olhares e sonhos.

Revela segredos

Divertidos e íntimos

Que nenhum Deus compreenderá.

Queima os olhos,

Acende fogueiras,

Incendeia a vida.

Instiga o desejo de reproduzir

Escondido por tiras ou pensamentos,

Novas bundas.

E segue rítmica, ondulante

Como deve ser o centro

Da vida.

Rebola oferecida

Cheia de nãos;

Definitivos.

( Para o Grande Drummond, se não ofender)