Estrelinha

Estrela marrom, cinco pontas macias.

Anã vermelha, revestida por camurça rala,

Muito anã, muito vermelha, mínima.

De latidos finos como laser.

Da constelação de Virgem

Sem nunca ter feito votos

Espreita dissimulada

O próprio pai, cão devasso.

Pobre Estrela lesada!

Pernas tortas, cambaleantes.

Morte prenunciada por lúgubres lamentos

Do parceiro agora silencioso.

Que triste Estrela! Solitária.

Meu lamento durará minutos de seus anos.

Sempre lembrada, delicadamente feia

Estrelinda!

Apagaremos em estações diferentes.

Poesia, um estado.

Poesia boa é curta e direta.

Como faca afiada que corta fino.

Sem rebarbas, sem pontas, sem dúvidas.

Poetisa sobre o óbvio, escancarando

A carne doente que luta diariamente

Contra o apodrecimento.

Que nada contra a corrente

Que reza como demente

E trava.

Que chora lembranças infantis

Nem sempre felizes

Inadequadas ao ser agora distante, em anos.

Para que escalar estrofes

Cansando os braços

Enquanto sobe esta colina?

Obriga olhar no relógio do tempo que não tem.

E nem precisa; apenas hábito de ser presente.

No livro de poesias, como se fosse de receitas

O acordar, o dormir, o conversar, o amar.

Possibilidades com destinos desconhecidos

Balouçando irregular e sem motivo

Imune aos deuses ardilosos

Ouvindo ao longe o rugir da queda

Ruge como filhote, cresce e te apanha

Cheio de surpresa e perplexidade

Tédio

Não vivo, só conecto.

Existo enquanto há bateria.

Se acabar, morro desidratado.

O real é o caos,

Assim na terra como no céu.

Deletemos ele!

Desinteressado e aborrecido

Sem carga, sem sinal

Adoeço, naufrago.

Em meu próprio corpo incerto,

Vegeto.

Errantes

Eu vi Marte, Júpiter e Saturno quase perfilados, sob corrente invisível, submissos.

Como aos seus antigos descobridores, são os mesmos astros; não aos olhos e expectativas.

São vizinhos de casas vazias e pó. Em desoladora imensidade. Reforçam-nos.

Igreja

Espaço amplo e cheio

Luz em riscos obliquos.

À direita, vozes duras;

À esquerda, vozes aguadas.

No meio, o vazio mudo

Expõe.

No meu coração, o silêncio

Da torre.

Premissas e alegrias,

Falsas.

Por todos os lados

Figurantes tementes, atentos.

O teatro está cheio,

Deus está feliz.

Seu povo continua em pecado.

Dois irmãos

Otávio tinha onze ou doze anos e não imaginava que presenciaria uma cena de crime tão brutal e nem que anteveria o próprio destino e o da irmã, menina débil e dada a choro fácil. Morava com os pais e a irmã três anos mais nova em uma casa grande, porém modesta. Depois das aulas, sem o que fazer, andavam soltos pela casa quase vazia. Os pais trabalhavam; a empregada também.

Por aqueles dias, correu a notícia do assassinato de um trabalhador rural apreciado pela dedicação à família e ao trabalho. De pouca conversa, não era de rezas e esquivava-se às investidas obstinadas de pregadores e seus deuses ambiciosos.

Como soube Otávio, bisbilhotando as conversas dos professores, à mulher do trabalhador não se podia dar as mesmas credenciais. Recentemente convertida, tornou-se obcecada às coisas de Deus e se dedicou ao convencimento do marido e da filha adolescente. Era defensora intransigente da fé e da condenação sumária dos transviados.

O fato é que, ao voltar do trabalho, o agricultor, sujeito de coração manso, surpreendeu um missionário abusando de sua menina enquanto outro assistia. A mãe dela tinha saído minutos antes para visitar um doente, vizinho de poucas casas abaixo na mesma rua, deixando a filha na certeza da proteção divina.

O grito do pai foi tardio; o estrago em seu coração e na dignidade da filha consumados. Do entrevero que se seguiu, o ajudante do crime escondido atrás da porta atingiu a cabeça do homem com um machado lá ficando preso enquanto seu corpo tombava como animal abatido sobre as brasas do fogão. Para preservar a menina, um tiro clemente juntou-a ao pai.

Aqui começa a história dos dois irmãos. O pai deles, único retratista da cidade, registrava todo tipo de evento: casamento, batizado, formatura, fotos de documentos ou de animais de estimação. Ia para a derradeira foto de ente querido recém instalado no caixão e, sim, também nas cenas de crime quando o delegado determinava. Foi o que aconteceu. Tenso, pediu proteção ao mesmo Deus que a havia negado aos que seriam documentados; registrou, sobreviveu, sobraram cópias. Numa de suas incursões pela casa, Tavinho sondou o baú meio escondido no armário reservado à guarda de roupas de cama e toalhas, sem muitas esperanças. Com frequência, verificava se a tampa estava destrancada. Muitas vezes vira o baú aberto cheio de papeis e documentos, mas o que chamava sua atenção eram as fotos de bruços. Para sua surpresa e, sem acreditar na frouxidão ao puxar, sentiu o cheiro de papéis trancados, de perigo e de imprudência.

Cauteloso, levantou a tampa e empalideceu ao desvirar a primeira foto e dar de cara com uma cabeça rachada por um machado e um olho vazado na face tostada. O arrepio deu voltas por seu corpo até tremer as mãos. Olhou magnetizado cada detalhe, depois, levemente apavorado e… se adaptou! De repente, sorriu. Aguardou a noite se firmar em casa com cada um na sua rotina e certificou-se: o baú ainda aberto; a mãe entregue à televisão; o pai, outra vez adoecido, deitou-se cedo e a irmã, insone, rolava pela casa à procura do que fazer e, ao sinal do irmão, foi até ele.

“Tenho uma surpresa”. Tavinho, calmamente, disse.

“Que é?”

“Vem cá, na janela.” Puxou-a pelo braço, num arranque.

“Tá escuro. Liga a luz”.

“Não pode. A surpresa morre.”

“Que é, então? “

Tavinho abriu o baú e pediu à irmãzinha para fechar os olhos e só abrir quando ele mandasse. A janela aberta dava para a rua e uma grande árvore agitava os galhos como se chamasse a atenção da menina ao mesmo tempo que, com certo prazer, talvez, impedisse a luminosidade do poste próximo de revelar a trama. “Que doente!” pensariam a árvore e o poste. Mas, se pensaram, não tomaram partido. Tavinho posicionou a inocente e colocou a foto em suas mãos bem de frente aos olhos; afastou-se um pouco para apreciar a cena e ordenou: “pode abrir”.

Maya abriu os olhos e, sem entender o que via, sentiu as pernas amolecerem. Chorou. Nunca, mesmo em seus pesadelos com a perda dos pais tinha se aproximado de dor tão grande. Teve dúvida se era corpo de gente ou de animal. Chegou mais perto da janela e viu o machado enterrado na cabeça onde existiu um homem. No rosto parcialmente queimado, o olho esquerdo era um oco escuro e a boca retraía-se num esgar admirado.

“Cadê a menina?”

“Nem procurei. Pra quê ?”

Tavinho apontava os detalhes como a mão esquerda queimada, os dedos ossudos e a aliança meio escondida sob as cinzas; o sangue como melado em lago e escorrido até o chão. Ela percorreu a foto com olhos nervosos e viu a panela de ferro com o feijão ressecado e as exuberantes réstias de alho e cebola penduradas. Numa das fotos, um vaso pequeno de miosótis podia ser visto sobre a mesa de réguas escuras. O olho vitrificado que nada via impressionava. O cenário impregnou Maya de um esvaziamento arrasador.

O choro diminuiu. Virou lamento de abelha se debatendo na ilusão do vidro. Maya devolveu o papel e seguiu para o quarto sem dar boa-noite. Não dormiu e, por muitas outras noites, teve o sono interrompido pelo olhar vazio do homem assassinado. Nada disse aos pais e nem reclamou com o irmão, mas para sempre guardaria noite. Não viu a foto da menina e nunca teria uma. Um bloqueio, talvez, a impedisse, ou, uma anti-vida nasceu.

O Tempo seguiu incólume e indiferente às estações cultuadas pelos homens. Os temidos dias das mortes dos pais há muito esquecidos. Aos vinte e oito anos, Maya teve sua segunda gravidez nas trompas e ficou incapacitada de gerar. Do marido de dez anos, a novidade: um casamento novo; o dele. Vivendo só, ergueu castelo. Como o irmão, antecipara o dejavu angustiado

Em repentino cinquenta e sete anos, Otávio é pai de uma garota muito, muito inteligente de doze anos e ele a leva e busca no colégio, que, hoje, comemora o dia dos pais e ela ensaiou sua fala com afinco. Entre músicas, palmas e assovios, os gritos começaram súbitos, tomando conta da escola, como se fossem parte da festa. Emocionados, não perceberam a invasão de traficantes fugidos da polícia e atirando para criar escudo. Bem equipados, carregavam armas brancas e de fogo.

Otávio correu para proteger a filha, a primeira a ser atingida. Gritos e fugas desorientados na tarde caótica sob o olhar ambíguo do Pai. Cinco jovens mortos e sete pessoas acometidas em gravidades variadas; uma morte por arma branca. Dois bandidos mortos; o do cutelo, tinha uma grande cruz tatuada no peito. Maya reconheceu os corpos da sobrinha e do irmão; aturdidos, olhos vítreos, admirados.

Carro de boi

O carro sobe gemente.

Assovia um clamor penitente.

Vai devagar, carregado e rico.

Com o peso de quebrar o silêncio

Daquele tempo, naquela cidade, de minha memória.

De longe, há muito, e não perdoo, ouço agora sua confissão:

Tinha poder de alargar o tempo

E de aprofundar a solidão.

Aviso

Da igreja, o tema sonoro do final

Escorre entre as ruas

Navegando com o vento.

Tira das casas angustiadas

Parentes de sangue e solidários.

Uma trama acabou.

A música lenta, dobrada em próprio peso, alerta:

Minha história também se finda.