Dois irmãos

Otávio tinha onze ou doze anos e não imaginava que presenciaria uma cena de crime tão brutal e nem que anteveria o próprio destino e o da irmã, menina débil e dada a choro fácil. Morava com os pais e a irmã três anos mais nova em uma casa grande, porém modesta. Depois das aulas, sem o que fazer, andavam soltos pela casa quase vazia. Os pais trabalhavam; a empregada também.

Por aqueles dias, correu a notícia do assassinato de um trabalhador rural apreciado pela dedicação à família e ao trabalho. De pouca conversa, não era de rezas e esquivava-se às investidas obstinadas de pregadores e seus deuses ambiciosos.

Como soube Otávio, bisbilhotando as conversas dos professores, à mulher do trabalhador não se podia dar as mesmas credenciais. Recentemente convertida, tornou-se obcecada às coisas de Deus e se dedicou ao convencimento do marido e da filha adolescente. Era defensora intransigente da fé e da condenação sumária dos transviados.

O fato é que, ao voltar do trabalho, o agricultor surpreendeu um missionário abusando de sua menina enquanto outro assistia. A mãe dela tinha saído minutos antes para visitar um doente, vizinho de poucas casas abaixo na mesma rua, deixando a filha na certeza da proteção divina.

O grito do pai foi tardio; o estrago em seu coração e na dignidade da filha consumados. Do entrevero que se seguiu, o ajudante do crime escondido atrás da porta atingiu a cabeça do homem com um machado lá ficando preso enquanto seu corpo tombava como animal abatido sobre as brasas do fogão. Para preservar a menina, um tiro clemente juntou-a ao pai.

Aqui começa a história dos dois irmãos. O pai deles, único retratista da cidade, registrava todo tipo de evento: casamento, batizado, formatura, fotos de documentos ou de animais de estimação. Ia para a derradeira foto de ente querido recém instalado no caixão e, sim, também nas cenas de crime quando o delegado determinava. Foi o que aconteceu. Tenso, pediu proteção ao mesmo Deus que a havia negado aos que seriam documentados; registrou, sobreviveu, sobraram cópias.

Numa de suas incursões pela casa, Tavinho sondou o baú meio escondido no armário reservado à guarda de roupas de cama e toalhas, sem muitas esperanças. Com frequência, verificava se a tampa estava destrancada. Muitas vezes vira o baú aberto cheio de papeis e documentos, mas o que chamava sua atenção eram as fotos de bruços. Para sua surpresa e, sem acreditar na frouxidão ao puxar, sentiu o cheiro de papéis trancados, de perigo e de imprudência.

Cauteloso, levantou a tampa e empalideceu ao desvirar a primeira foto e dar de cara com uma cabeça rachada por um machado e um olho vazado na face tostada. O arrepio deu voltas por seu corpo até tremer as mãos. Olhou magnetizado cada detalhe, depois, levemente apavorado e… se adaptou! De repente, sorriu.

Aguardou a noite se firmar em casa com cada um na sua rotina e certificou-se: o baú ainda aberto; a mãe entregue à televisão; o pai, outra vez adoecido, deitou-se cedo e a irmã, insone, rolava pela casa à procura do que fazer e, ao sinal do irmão, foi até ele.

“Tenho uma surpresa”. Tavinho, calmamente, disse.

“Que é?”

“Vem cá, na janela.” Puxou-a pelo braço, num arranque.

“Tá escuro. Liga a luz”.

“Não pode. A surpresa morre.”

“Que é, então? “

Tavinho abriu o baú e pediu à irmãzinha para fechar os olhos e só abrir quando ele mandasse. A janela aberta dava para a rua e uma grande árvore agitava os galhos como se chamasse a atenção da menina ao mesmo tempo que, com certo prazer, talvez, impedisse a luminosidade do poste próximo de revelar a trama. “Que doente!” pensariam a árvore e o poste. Mas, se pensaram, não tomaram partido. Tavinho posicionou a inocente e colocou a foto em suas mãos bem de frente aos olhos; afastou-se um pouco para apreciar a cena e ordenou: “pode abrir”.

Maya abriu os olhos e, sem entender o que via, sentiu as pernas amolecerem. Chorou. Nunca, mesmo em seus pesadelos com a perda dos pais tinha se aproximado de dor tão grande. Teve dúvida se era corpo de gente ou de animal. Chegou mais perto da janela e viu o machado enterrado na cabeça onde existiu um homem. No rosto parcialmente queimado, o olho esquerdo era um oco escuro e a boca retraía-se num esgar admirado.

“Cadê a menina?”

“Nem procurei. Pra quê ?”

Tavinho apontava os detalhes como a mão esquerda queimada, os dedos ossudos e a aliança meio escondida sob as cinzas; o sangue como melado em lago e escorrido até o chão. Ela percorreu a foto com olhos nervosos e viu a panela de ferro com o feijão ressecado e as exuberantes réstias de alho e cebola penduradas. Numa das fotos, um vaso pequeno de miosótis podia ser visto sobre a mesa de réguas escuras. O olho vitrificado que nada via impressionava. O cenário impregnou Maya de um esvaziamento arrasador.

O choro diminuiu. Virou lamento de abelha se debatendo na ilusão do vidro. Maya devolveu o papel e seguiu para o quarto sem dar boa-noite. Não dormiu e, por muitas outras noites, teve o sono interrompido pelo olhar vazio do homem assassinado. Nada disse aos pais e nem reclamou com o irmão, mas para sempre guardaria noite. Não viu a foto da menina e nunca teria uma. Um bloqueio, talvez, a impedisse, ou, uma anti-vida nasceu.

O Tempo seguiu incólume e indiferente às estações cultuadas pelos homens. Os temidos dias das mortes dos pais há muito esquecidos. Aos vinte e oito anos, Maya teve sua segunda gravidez nas trompas e ficou incapacitada de gerar. Do marido de dez anos, a novidade: um casamento novo; o dele. Vivendo só, ergueu castelo. Como o irmão, antecipara o dejavu angustiado

Em repentino cinquenta e sete anos, Otávio é pai de uma garota muito, muito inteligente de doze anos e ele a leva e busca no colégio, que, hoje, comemora o dia dos pais e ela ensaiou sua fala com afinco. Entre músicas, palmas e assovios, os gritos começaram súbitos, tomando conta da escola, como se fossem parte da festa. Emocionados, não perceberam a invasão de traficantes fugidos da polícia e atirando para criar escudo. Bem equipados, carregavam armas brancas e de fogo.

Otávio correu para proteger a filha, a primeira a ser atingida. Gritos e fugas desorientados na tarde caótica sob o olhar ambíguo do Pai. Cinco jovens mortos e sete pessoas acometidas em gravidades variadas; uma morte por arma branca. Dois bandidos mortos; o do cutelo, tinha uma grande cruz tatuada no peito. Maya reconheceu os corpos da sobrinha e do irmão; aturdidos, olhos vítreos, admirados.

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