Um Fantasma

Dizem que morri, mas não tenho cheiro.
Ninguém, por mais cristão que seja ou, por isso mesmo,
teve a coragem de se aproximar e
revelar. Os cristãos são humanos discretos.
Preferem a distância.

Certo é que, com facilidade surpreendente, caminho
sem ser barrado, sem ser esbarrado em qualquer direção
por aqueles que cochicham e desviam seus olhares
quando aproximo.

Dizem, à meia voz, que
sou o primeiro fantasma da humanidade
que veste corpo de carne.
Um fantasma real.

Entro no trabalho pela fila da roleta.
Todos são consistentes. Entro como vapor.
Abro e fecho portas, percorro corredores
repletos de imagens em que não me reconheço.

Todo dia acordo para serviços e
executo procedimentos-padrão.
O dia ignora se foi bom ou ruim;
apenas relógio sem ponteiros; máquina precisa.

Os ruídos fortes irritam como festas e abafam
o medo pavoroso do silêncio. vejo nos olhos.
Enquanto riem e falam alto se protegem da grande angústia.
Consolam-se com histórias infantis.

Revelo meu segredo:
fui mijado!
Nem nasci como ideia
em ejaculada gozação.

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