Um Dia…

Um Dia..
Um Dia…
Roberto Vagner Reis

Rodrigo Faria é um advogado sisudo e de poucas palavras. Guarda-as para seus duros e frequentes embates no tribunal. Quando jovem, abriu mão de festas e relacionamentos amorosos mais sérios para dedicar-se aos estudos. Hoje, especialista em direito de família, suas conversas são sobre traições e pensões, filhos, enteados e flagrantes e também sabe lidar bem com as sutilezas de palavras semeadas e provas plantadas para quebrar seu cliente.

Já passando dos quarenta, amabilíssimo, guarda a habilidade de esconder em um corpo de meia-idade, trajes discretos com direito ao uso habitual de gravata borboleta, um poder de articular argumentos finos e destruidores, sempre usados. Uma mudança que surpreendia seus clientes ao vê-lo atuar como se fosse em defesa própria. Um cão de guarda poderoso e bem pago. Orgulhava-se disso.

Com pouco tempo para colocar os trabalhos em dia – graças a deus, as pessoas continuam se separando ou mais – foi, muito cedo naquele sábado, ao escritório. O ambiente silencioso e escuro em nada lembrava os desfiles de dores, rancores e dinheiro que lhe davam vida. Revisava um caso arrastado envolvendo herança pesada e muitos interesses e que seria julgado em breve. Colocou alguns pacotes empoeirados sobre a mesa finamente trabalhada em madeira escura e percebeu a presença de uma pasta no chão do armário. Abriu a janela para ventilar a sala e distraiu-se. A rua quase vazia, o dourado agradável e envolvente do sol nascente e o vento suave e frio que soprava sem pressa, davam um prazer esquecido.

Lembrou-se da pasta e, assim que foi aberta, um sorriso forçou os lábios ao ver aquela fotografia tirada havia tantos anos. Registrava a lembrança de uma noite feliz trazida agora ao presente com nitidez e acompanhada de batidas fortes do coração.

Dezembro, noite quente e esperada por Rodrigo. Naquela noite, ele sussurrou surpreso consigo mesmo, uma declaração de amor ao ouvido de Maria enquanto tocava sua delicada cintura. Um sorriso apaixonado se espelhava nos rostos. Ela usava vestido preto com detalhes dourados deixando à mostra sedutor ombro nu e tinha nos olhos um brilho de amor eterno. Ele usava terno azul bem cortado, gravata borboleta branca e, apesar da cara de menino, não fazia feio. – “Maria! Como você está linda!”- disse com olhar enganado sentindo os detalhes. – ”Amava ainda”? – Voltou ao presente. ”- Não, não mais”, – encerrou.

Rodrigo saiu daquele breve mergulho no passado com um balançar de cabeça e o sorriso sumiu. Por minutos, esteve convicto de que aquela Maria ainda existia tal com na foto. Melancólica lembrança de um ano, sem data, dourado. Girou a cadeira e olhou pela janela sem se fixar em nada. Tantos sonhos! Uma respiração profunda saiu espontânea e sem testemunhas. A foto e sua lembrança já eram caso encerrado. Carros e pessoas trouxeram de vez seus pensamentos ao presente cheio de prazos e obrigações. Rodrigo Faria, o galgo, sempre inspirado, balbuciava palavras duras, infladas e de sucesso. Uma pregação! A foto perdeu-se novamente entre outras pastas poeirentas colocadas sobre a mesa e abertas sem interrupção. Nunca mais seria prova de um passado de possibilidades, de um dia…

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