Semente

 

Quando Clarice abriu o portão de casa, tinha os olhos vermelhos e uma aparência enjoada. Largou sobre o sofá a pequena bolsa e mal cumprimentou o pai, que se encontrava na sala descansando. Já no quarto, andava de um lado para o outro com expressão indefinida. Sobre uma cadeira, dois vestidos novos de debutante e caixinhas com brincos, anéis e maquiagem jaziam sem emoções. Com cuidado, abriu de leve a porta e manteve os ouvidos atentos na sala; o rosto contraiu-se ao perceber a ausência de um envelope no bolso da calça. Tirou-a e revirou cada um deles até o fundo. Passou a rodar pelo quarto em desespero e movia os lábios num monólogo ininterrupto. Em frente ao espelho do guarda-roupa deslizou, sem tocar, a mão sobre a barriga lisa e logo correu para o banheiro, cerrando a boca; bateu a porta com força inesperada e lá ficou por mais de meia hora.
Na sala, o pai voltou ao trabalho após os minutos de folga e marcou com giz azul o tecido macio que cortaria. Estava rodeado por pilhas de moldes que roubavam sua atenção e para cada pedido havia pequenos papéis cheios de números e desenhos. Na gaveta parcialmente aberta, junto a agulhas e tesouras, contas; muitas delas.
Estavam os dois, apenas; ele parecia não esperar pela chegada de mais ninguém. Ela, sim; mas não sabia quem. Ele traçava riscos retos e azuis; ela, contida, vomitava sem parar. O giz, pequeno, escapou e caiu sob a cadeira. Com cuidado, o alfaiate apoiou-se na beirada do sofá para pegá-lo, quando percebeu, na bolsa largada pela filha, uma folha amassada com um timbre conhecido. Puxou devagar, devagar.
Clarice lavou o rosto abundantemente e respirou fundo, três vezes; a última, mais demorada, ao colocar a mão na maçaneta da porta do banheiro e escancará-la com determinação. Seguiu a passos largos para o pai, mas, estacou ao vê-lo segurando o papel perdido com aquele número inesperado e, lentamente, se voltava para ela. Ficaram lá, parados, no meio da sala, com lágrimas que corriam soltas e não se misturavam. O pai curvou os ombros e parecia pender a cabeça de modo a perdê-la a qualquer momento. Sentou-se com dificuldade amassando ainda mais o papel.
Clarice, olhos fixos no chão, aproximou-se do sofá pelo lado oposto ao pai. Sozinhos ficaram cada um em seu canto, imóveis, sem voz, sem mediação. A noite ia longe, escura, fechada. Clarice, entre soluços, vomitava; o pai perdera a linha e a paz; falou com aparente apreensão por minutos. Um e, logo após, o outro, seguiu para o seu quarto e fecharam as portas com cuidado. O papel amassado e malfadado voltou ao chão e sob a cadeira se escondeu, rejeitado.

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