Dois do onze

A areia das palavras polvilha
o recheio dos dias.
Torna os dentes destes dias
rugosas armadilhas.
A areia do silêncio é nobre.
Suga a umidade e o prazer.
E o silêncio é nobre.
E sua insistência é dor.
Na cabeça, o relógio entupido de pensamentos
arenosos, miragens cortantes.
E nas veias finas grãos existem; 
suas existências inconscientes as salvam.
No peito, bomba à vácuo repele areia sob pressão
e retém poeira levantada,tóxica.
Sopros curtos, sopros longos; ausências
obriga o peito a se movimentar e sentir. 
Processadores habilitam areias.
Os grãos se esfarelam, se reproduzem e crescem
cheios de sonhos;
solidarizam, formam ongs.
A betoneira do mundo misturando tudo
de boca aberta aborta areia grossa.
E os dias são coleções de grãos esquecidos
engruvinhados sob sol burocrático.
Dias impactantes são registrados
e mudam completamente, pelo vento e único grão, toda a existência do mundo.
E as máquinas de areia, produtoras de areia, sonhos de areia
alugam salas e apartamentos sob as bençãos
de seus múltiplos e irreconciliáveis deuses e seus tronos de areia.

Agora, em paz, todos!
Todos de mesma areia acreditada diversa.
Exibem, enfim, o opaco duro do vidro.
Não há palavras, não há silêncio.
Não pulsos nem pulsões.
Não há promessas ou o seu medo.
Não há nada além de um ponto final; um grão.

Final de noite, final de reunião.
Nunca saberemos os finais das conversas.
Descansam em casas vazias, em camas de areias.
Cabinas mágicas escondem mistérios.

Sobre vazios, lágrimas de areias derramadas.

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