Destaque

Ruminar

Todos ruminamos.
Suamos força bruta
para sobreviver.

Ruminamos trabalho, casamento, filhos.
Tiramos o pó que voltará.
Arredamos cenários para aumentar espaço.
Cuspimos moralidades antigas;
engasgamos com migalhas; ruminamos passado e futuro.
E bençãos turvas nos guiam


Um mundo  inútil,
Nesta estação cheia de filas
Para bilhete ilusório.

O pó insistente volta
e nos obriga a ruminar:
ilusões e maus conselho e o hábito de se desprezar.

O inimaginável chega.
Nos atinge e nele nos transformamos.
Nós, pó eterno.
Irrelevante.

Destaque

Dois do onze

A areia das palavras polvilha o recheio dos dias.
Torna os dentes destes dias rugosas armadilhas.
A areia do silêncio é nobre e suga a umidade e o prazer.
O silêncio é nobre e sua insistência é dor.
Na cabeça, o relógio entupido de pensamentos
arenosos, miragens cortantes.
E nas veias finas grãos existem; 
suas existências inconscientes as salvam.
No peito, bomba a vácuo repele areia sob pressão
e retém poeira tóxica.
Sopros curtos, sopros longos; ausências,
obrigam o peito a se movimentar e sentir;
processadores habilitam areias.
Os grãos se esfarelam, se reproduzem e crescem cheios de sonhos; solidarizam, formam ongs, escrevem poemas.
A betoneira do mundo misturando tudo
sua boca aberta aborta areia grossa.
E os dias são coleções de grãos esquecidos sob sol burocrático.
Dias impactantes registrados mudam completamente, pelo vento e único grão, a existência do mundo.
Máquinas de areia, produtoras de areia, sonhos de areia
alugam salas e apartamentos sob as bençãos
de seus múltiplos e irreconciliáveis deuses e seus tronos de areia.

Agora, em paz, todos!
Todos de mesma areia acreditada diversa.
Exibem, enfim, o opaco duro do vidro.
Não há palavras, não há silêncio.
Não pulsos nem pulsões.
Não há promessas ou o seu medo.
Não há nada além de um ponto final; um grão.

Final de noite, final de reunião.
Nunca saberemos os finais das conversas.
Descansam em casas vazias, em camas de areias.
Cabinas mágicas escondem mistérios.
Sobre vazios, lágrimas de areias derramadas.

Carroça

A carroça sobe gemendo.

Assovia um clamor penitente.

Vai devagar, carregada e rica.

Com o peso de quebrar o profundo silêncio

Daquele tempo, naquela cidade, de minha memória.

De longe, há muito, e não perdoo, ouço sua confissão:

Seu poder de alargar o tempo

E de aprofundar a solidão.

Aviso

Da igreja, o tema sonoro do final

Escorre entre as ruas

Navegando com o vento.

Tira das casas angustiadas

Parentes de sangue e solidários.

Uma trama acabou.

A música lenta, dobrada em próprio peso, alerta:

Minha história também se finda.

Um mapa

O sol brilha recém-nascido.

O azul límpido exibe finas falhas.

O verde pálido fica distante.

Aleatórios marcos em marrom e verde algodoado.

O inevitável azul( deveria ser marrom), em filete, que não escorre.

A casa mínima é o centro da cena.

Algum exemplar de ser vivo delineado.

Por trás, o olhar ingênuo admira

O mapa dos sonhos sem perceber as bordas.

Justo elas que provocam vertigem!

O mapa persiste e alimenta delírios.

O olhar envelhece, enrijece e morre.

Mas, a semente da divina missão

Dissemina, entre os escolhidos, ou não,

Que o mapa deve ser seguido,

Como a doença

Que de nosso íntimo o sumo extrai.

Movimento

Não sei o que dizer

Mas me forço a pensar

O que se deve querer

Se o dia raiar

Noite longa sem ter fim

Com o náufrago a procurar

Uma miragem pra seguir

Uma estrela pra escapar

( Adubados na solidão

Em planejados sulcos

Transformo torrão bruto

Em pensamentos e razão)

Uma semente inesperada

Pálida potência de vida

Por fio de luz pincelada

Multicores exibidas

Na aparência suavizada

Algum sonho de alegria

A centelha liberada

Do brilho do novo dia

varrição

os amantes eletrizados
vagueiam à procura de ninho e
andam cegos, andam soltos,
plenos de energias e raios

prestes a cair; e vontade de morrer
e se enterrar um no outro.
no banco da praça vazia da cidade deserta,
bem no fim da noite e começo do dia.

o banco frio e úmido, não percebem.
seus corpos estudam a melhor estratégia;
se acomodam, se molham, se enrijecem,
canibalismo treslouco anunciado.

a porta conservadora de uma casa azul e branco colonial
escondia vassoura bastante prestimosa.
antecipando o horror acordou sua dona, mui religiosa
e varreram para muito longe os desejos de todos.


Uma versão

Será de sabiá o canto que ouço longe

Ou será ilusão da memória?

Mas sabiá foi calado, como os outros,

Pelo pranto da mata queimada.

Mata distante, fuligem na história.

Palmeiras rupestres sobraram.

Outra mata fechada floresce.

Caules finos, sem galhos, sem pousos.

Voaram todos, sem rumo, dispersos.

O silêncio quebrado por gralhas felizes.

Risadas secas, automáticas

Em torno da fogueira para a liberdade.

Não alucino, pois de sabiá é o canto…

Aninhado alto.

Talvez um idoso, talvez um relógio

Esse escape saudoso.

Da terra bela e suas palmeiras

Restam dúvidas cerradas e corvos.

Teriam mesmo sabiás havido?

Ou apenas devaneios de bem-te-vi engajados ?